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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Ode ao Gato

por Artur da Távola(*). 

Diana


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"Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as saudáveis. Gato só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso. 'Falso', porque não aceita falsidade e só admite afeto com troca de respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.



O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. Nada pede a quem não o quer. É exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor e nem dele depende, mas se lhe dá, então o exige (quando sente é capaz de amar muito... discretamente, sem derramar-se).

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de promoção ou explicação os assusta. Ingratos os desgostam. Falastrões os entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. 



Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência. A relação dele é com o que está oculto, guardado e os homens não querem, sabem ou podem ver. Por isso, quando esboça um gesto de entrega ou manifestação de afeto, é muito verdadeiro, impulso que não pode ser desdenhado. 

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente). O gato vê mais, vê dentro e além. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) são possíveis traduzir.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio, a devolver ao homem as perguntas medrosas esperando que ele encontre o caminho na sua busca, em vez de o querer já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo à pesquisa do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

Alain Delon e uma das usa paixões: os gatos


Lição de sono e de musculação, o gato ensina todas as posições de respiração e yoga. Ensina a dormir com entrega total e diluição no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.

Lições de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia e equilíbrio. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, o escuro e a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.

Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gesto e senso de oportunidade. Lição de vida e elegância, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemência ou exageros e incontinências. 

Ninguém em em toda a natureza, aprendeu a bastar-se a si mesmo como o gato."




(*)Artur da Távola, o pseudônimo de Paulo Alberto Artur da Tavola Moretzsonh Monteiro de Barros, foi um advogado, jornalista, radialista, escritor, professor e político brasileiro. Foi um dos fundadores do PSDB.
Nascimento: 3 de janeiro de 1936, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Falecimento: 9 de maio de 2008, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Livros: O jugo das palavras, MAIS